terça-feira, 12 de junho de 2018

Artigo de Opinião - Jorge Manuel Magalhães



"Sou professor há vinte e quatro anos. Sempre trabalhei na região de Basto. Posso dizer, pois, que conheço razoavelmente esta terra, a minha terra. “Inaugurei”, nos idos de 1995, a Escola EB 2,3 do Arco de Baúlhe. Foram anos de grande bulício, de corredores apinhados e de recreios lotados. De transformarmos gabinetes, e até a cantina, em sala de aula! Olhando para trás, que saudades…. Dos mais de quinhentos alunos que a Escola chegou a ter, resta hoje pouco mais de metade. Os corredores, os recreios estão hoje mais desertos, mais calados, mais tristes. A própria Vila do Arco de Baúlhe sente falta das brincadeiras, da irreverência, da malandrice, até da impertinência dos mais novos. E a verdade é que este fenómeno só tem tendência a agudizar-se nos próximos anos. É isso pelo menos que o número de nascimentos, em mínimos históricos, nos vem antecipando. Segundo os dados do próprio Município, Cabeceiras de Basto perdeu – entre 2001 e 2013 – mais de mil e quatrocentos habitantes. E é precisamente na faixa etária dos mais novos – até aos 14 anos – que essa perda é mais significativa: menos mil crianças e adolescentes. Em apenas doze anos!
            Dir-me-ão que são sinais dos tempos que vivemos e que outros, noutras regiões, também enfrentam o mesmo drama. Esta explicação não nos deve satisfazer. Não é encolhendo os ombros e navegando nas ondas do tão português fatalismo que este problema se atenuará. Algo tem de ser feito e algo pode ser feito. E não estou a referir-me, apenas, àqueles que, estando em idade fértil, podem atuar sobre este problema com mais … convicção, digamos assim. (Até porque vários estudos provam que os casais querem ter mais filhos; precisam, isso sim, é de um quadro exterior – ao nível do emprego, da habitação, da educação, da saúde, da cultura, … – que lhes dê a segurança necessária para concretizarem o desejo de serem pais.) Estou a pensar, sobretudo, nos poderes públicos, que, se não têm o direito de entrar na privacidade das nossas casas, têm a obrigação de tudo fazer para proporcionar às populações que servem as melhores condições de vida e de realização pessoal, familiar e profissional.
            O Município de Cabeceiras de Basto atribui um subsídio à natalidade no valor de quinhentos euros. Não é mau, dirão uns; é bem mais do que havia antes, dirão outros; é escasso, digo eu. Bem mais importante que este apoio em dinheiro – que, sejamos honestos, se esgota no carrinho do bebé e em meia dúzia de pacotes de fraldas … – é criar condições para fixar as populações – travando a (e)migração – e, ao mesmo tempo, captar população de outros Concelhos e fazer regressar aqueles que tiveram de partir para outras paragens. É preciso atrair investimento que crie emprego qualificado e de qualidade; é preciso investir em serviços de saúde que respondam com rapidez e eficiência a qualquer necessidade; é preciso diversificar a oferta formativa – nomeadamente ao nível dos cursos profissionais, respondendo às reais necessidades do mercado e dos jovens que, de outra forma, procurarão essas saídas noutras regiões.
            É um trabalho que não dará frutos amanhã nem daqui por seis meses. Mas acabará por dar. E quando a alternativa – o não fazer nada – apenas agudizará a desertificação e o envelhecimento da população, não me parece difícil a escolha. É urgente agir. E ontem já era tarde…" -in Jornal 'O Basto'

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